O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, uma redução de 7,4% em relação a 2023 e o menor total da série histórica desde 2014. A taxa nacional de homicídios caiu para 20,1 mortes por 100 mil habitantes. Os dados constam do Atlas da Violência 2026, publicado em 26 de maio pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A série do Ministério da Justiça, baseada nos registros do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP), apresenta números ligeiramente diferentes: 35.365 homicídios dolosos em 2024, queda de 6,3% em relação aos 37.754 casos registrados em 2023. A diferença entre as duas séries é metodológica — o Atlas inclui categorias adicionais de mortes violentas intencionais, como "morte por intervenção policial" e casos classificados inicialmente como "indeterminados" — e não representa contradição.

O alerta da subnotificação

O dado que mais preocupa pesquisadores e gestores de segurança pública não é a queda nos números registrados, mas o crescimento explosivo dos chamados homicídios ocultos — casos em que a causa real da morte, de fundo violento, é encoberta em registros oficiais por classificações como "causa indeterminada" ou "morte natural".

Segundo o Atlas, os homicídios ocultos cresceram 88,6% entre 2023 e 2024: de 3.755 para 7.083 casos. Em 2024, esses casos representaram 14,3% do total estimado de homicídios no país. Em outras palavras, quase 1 em cada 7 mortes violentas intencionais pode não estar sendo contabilizada corretamente nos sistemas oficiais.

"A queda nos registros formais é real, mas precisa ser lida com cautela. O crescimento da subnotificação pode estar mascarando parte da violência que persiste em regiões específicas", afirmou um pesquisador do FBSP em nota à imprensa por ocasião do lançamento do relatório.

Disparidades regionais

O relatório aponta que a redução nos homicídios não é uniforme em todo o território nacional. Estados do Norte e do Nordeste ainda concentram as maiores taxas per capita, enquanto o Sudeste e o Sul apresentam quedas mais expressivas. O fenômeno reflete tanto diferenças na capacidade institucional das polícias estaduais quanto na presença e intensidade de disputas entre facções criminosas pelo controle de territórios.

Minas Gerais e São Paulo registraram as maiores reduções absolutas, puxadas por programas estaduais de policiamento comunitário e pelo aumento das taxas de elucidação de crimes. Em contrapartida, estados como Pará e Amazonas mantiveram taxas acima da média nacional, associadas à expansão do crime organizado na região amazônica.

Contexto: programa federal e desafio da impunidade

A publicação do Atlas coincide com o lançamento do programa federal "Brasil Contra o Crime Organizado", do ministro Wellington César Lima e Silva, que destina R$ 201 milhões especificamente para a qualificação de homicídios — capacitação de peritos, integração de bancos de dados e aumento das taxas de elucidação. O índice atual de resolução de homicídios no Brasil ainda está abaixo de 10% em vários estados, comparado a uma média de 60% a 70% em países com sistemas de justiça criminal mais eficientes.

Pesquisadores do IPEA e do FBSP avaliam que a queda sustentada nos homicídios exige não apenas operações policiais, mas também investimentos em educação, habitação, emprego e políticas de desencarceramento seletivo para jovens em situação de vulnerabilidade — fatores que atuam sobre as causas estruturais da violência.

Fontes: Atlas da Violência 2026 (IPEA/FBSP, publicado em 26/05/2026); Agência Gov/EBC; gov.br/planejamento; Ministério da Justiça/SINESP. Dados verificados por LED Report com base em Correio Braziliense e Agência Gov.