Há uma diferença entre perder uma votação e ser derrotado. Lula perdeu a votação de 42 a 34 no Senado. Se vai ser derrotado depende de como vai reagir. A decisão de renominar Messias — anunciada com rapidez e firmeza, quase como resposta reflexa — ainda pode ser uma jogada inteligente. Ou pode ser o início de um desgaste que o governo não precisa às vésperas de outubro.
O placar não foi apertado. Quarenta e dois votos contra é uma maioria expressiva, a mais esmagadora já registrada contra um indicado ao STF desde que o Senado tem essa prerrogativa formal. Isso significa que não se trata de uma derrota de articulação — um ou dois votos que faltaram. É um sinal mais amplo: uma parcela relevante do Senado quis mandar uma mensagem ao Planalto sobre o método.
"O recado não foi contra a pessoa, foi contra o método de impor nomes sem diálogo", disse ao LED Report um senador do centro que votou contra a indicação e pediu para não ser identificado. Se essa leitura estiver correta — e há razões para crer que sim —, reapresentar o mesmo nome sem mudar o método é repetir o erro.
A história recente de indicações ao STF mostra que a relação entre o Executivo e o Senado sobre vagas na Corte sempre foi negociada informalmente antes do ato formal de indicação. O presidente faz sua escolha, mas consulta lideranças, ouve objeções, ajusta. O processo de Messias, segundo relatos de bastidores, pulou etapas — e o Senado cobrou o preço.
A boa notícia para o governo é que o erro é corrigível. Se Lula mantiver o nome mas conduzir as próximas semanas com conversas abertas, concessões pontuais e construção real de maioria, a segunda votação pode ter resultado diferente. Mas isso exige humildade processual — reconhecer que a articulação falhou, mesmo sem admitir publicamente.
A má notícia é que o calendário pressiona. A campanha eleitoral de 2026 já começou na prática, e quanto mais o impasse com o Senado se arrasta, mais ele consome capital político que o governo precisará para outra frente: a econômica. Com Selic acima de 13%, inflação acima da meta e a ameaça das tarifas de Trump sobre o agronegócio, o Planalto tem adversários suficientes sem precisar criar um no próprio Congresso.
A vaga no STF importa. Mas o momento e a forma em que a batalha será travada importam tanto quanto o resultado. Insistir sem reconstruir a base não é gesto de força — é o começo de uma segunda derrota que vai parecer muito maior do que a primeira.
